segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"Incomodada ficava sua avó"

por Letícia Bahia


A frase é boa, mas não é minha. "Incômodo" era a palavra que as mulheres de mil novecentos e bolinha usavam para se referir à menstruação, e a marca de absorventes internos Tampax fez o trocadilho deste título em uma propaganda. Hoje ninguém mais usa essa expressão, mas nem por isso a referência direta à menstruação deixou de ser um incômodo. A fobia é tanta que - pode reparar - nenhum comercial de absorvente usa essa palavra.

Esse distanciamento se reflete na linguagem, mas é na relação da mulher cissexual consigo que ele se torna abismal. Quantos mililitros de sangue seu corpo elimina a cada mês? Como é o cheiro da sua menstruação? É da mesma cor que o sangue que sai de um corte? Tem a mesma textura? É bem provável que estas perguntas soem estranhas, quiçá nojentas. Talvez a própria palavra menstruação já cause incômodo em algumas pessoas. Melhor dizer que estamos "naqueles dias", assim não provocamos nenhum constrangimento.

É assim quando o feminino se expõe: mostre uma vagina ou fale sobre a vagina e o mundo se escandaliza. Ela precisa ser escondida, sob o risco de ameaçar o monopólio do pênis como símbolo de potência. Lembro-me da minha menarca e da vergonha que ela me trouxe. Eu estava, como se diz por aí, "virando mulher", e isso me trazia... vergonha. Telefonei para casa e quem atendeu foi meu pai. Ele me pressionou para que eu dissesse por que estava estranha e eu me vi obrigada a cometer a mais alta transgressão: revelar meu ser mulher. 

Não importa: aqui vamos falar de vagina sim, e vamos falar sobre pêlos, sobre secreções, sobre histórias de parto humanizado. E hoje falaremos sobre menstruação. 

A primeira coisa a ser dita é que não há nenhuma razão para ter nojo da menstruação. Nojo é um sentimento que nos impele a nos afastar de algo, o que pode ser muito útil no caso de fezes, ratos, ou outras coisas que possam colocar nossa saúde em risco. A menstruação, no entanto, sinaliza saúde. Não se trata de guardar o sangue para cultuar nele o feminino sagrado, mas de compreender que não há porque temê-lo. Pelo contrário: o sangue menstrual contém informações preciosas sobre o funcionamento do corpo da mulher, podendo sinalizar DSTs, anemias e outros problemas. Dar atenção à menstruação é algo tão saudável quanto acompanhar a pressão sanguínea. 

Os absorventes que encontramos nas farmácias ou supermercados - aqueles que jamais mencionam a menstruação - vão na contramão desta intimidade com o próprio corpo. Com pequenas variações, as repetitivas propagandas vendem a ideia de que com o produto estaremos "mais limpas". Não chega a ser um milagre do calibre de converter água em vinho, mas a menstruação virou sujeira e nós nem percebemos. Mas não sejamos injustos: a Publicidade está apenas reproduzindo - e faturando com - uma ideia mais velha do que Eva e Adão. Não saberia dizer quem a inventou, mas há muitos anos uma turma de homens escreveu um livro importante sobre isso. O volume emplacou de tal maneira que hoje se acha gente em qualquer canto contando a estória da moça que comeu o que não devia, induziu seu companheiro, coitado!, a comer também, e deixou seu pai  furioso. É por causa desse erro, diz o livro, que a mulher sente dor ao parir. Mais pra frente o livro adverte: enquanto houver sangue fluindo de dentro da mulher, ela ficará impura e ninguém deverá tocá-la. Pra não restar sombra de dúvida sobre o caráter das regras, os autores repetem à exaustão que também se torna impuro tudo e todos que tocarem a mulher durante o período menstrual. 

Então ficou decidido assim: a menstruação é suja e fedida. A mulher maculou toda a humanidade com seu erro (mais pra frente o tal livro fala sobre um homem que teria vindo pra redimir a humanidade, mas isso é outra estória), e todo mês passará uma semana isolada em sua impureza. 

Quando, muito anos depois da publicação do referido livro, outra turma de meninos descobriu que a menstruação é tão somente um pedaço do ciclo que prepara a mulher para uma eventual gravidez, o estrago já estava feito. Mas a indústria de absorventes, generosa que só ela, vem fazendo o possível pra aliviar a barra das mulheres. Menção honrosa para o sabonete íntimo, porque não está certo vagina ter cheiro de vagina.

Chega de fábulas. Vejamos o que acontece na vida real quando compramos um absorvente e o colocamos dentro ou junto da nossa - vamos repetir? - vagina. 

Quando o sangue menstrual entra em contato com o ar, inicia-se uma série de reações que você não quer que aconteçam ali, do lado de fora da sua vagina. É a festa da uva das bactérias: matéria orgânica rica em nutrientes e o seu calorzinho gostoso. É por isso que os absorventes contém perfumes: para neutralizar o odor que eles mesmos produzem. Se a mulher tiver feito a lição de casa direitinho e não houver pêlos na região, a exposição será maior, já que o contato será ainda mais direto. Pois é, os pêlos que a gente aprende desde o útero a odiar são a nossa calcinha natural, mas esse assunto merece um texto só pra ele.

Sobre o absorvente interno: a vagina é um local úmido, e permitir que o fluxo sanguíneo escorra livremente mantém essa condição. Os absorventes internos não querem saber de conversa: sugam tudo que é líquido, inclusive a secreção que mantém úmido o canal vaginal.

Além de tudo isso, os absorventes comuns produzem uma quantidade gigantesca de lixo ao longo da vida da mulher. Mas bem, who cares?, não é mesmo?

Dessa discussão sobre saúde - física e emocional - da mulher, nasceu o coletor menstrual. Esse copinho de silicone medicinal (hipoalergênico e antibacteriano) fica acomodado no canal vaginal mais ou menos como um absorvente  interno. Custa em torno de sessenta reais e dura de cinco a dez anos - o que significa dizer que sua popularidade pode custar muito dinheiro às fábricas de absorventes.

Quando a mulher retira o copinho, lá está seu sangue. É possível conhecer sua textura, seu cheiro - de sangue, pasmem. Linhas horizontais ajudam a medir o volume do líquido, o que pode inclusive ajudar a diagnosticar uma anemia. É possível descartar o sangue no chuveiro ou na privada, mas vamos nos lembrar de que aquilo ali é matéria orgânica. Não é sujeira e não precisa de tratamento para retornar à natureza, por isso algumas mulheres fertilizam suas plantas com seu sangue, causando verdadeiro horror nos vaginofóbicos.

A menstruação é um dos infinitos exemplos de como a mulher é destituída de si mesma em função de sua utilidade. Nesta lógica puramente mercadológica, inventa-se o nojo, demoniza-se a menstruação e fatura-se com a venda de soluções. Não há nada de errado em desenvolver um produto bacana e lucrar com ele, mas fazer isso às custas da autoestima e, em alguns casos, da saúde  da mulher é... corriqueiro. 

Passem pra cá nossos corpos: nós é que vamos decidi-los.






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23 comentários:

  1. Arrasou Letu. Nunca vou esquecer da primeira vez em que fui esvaziar o recém comprado e usado coletor, senti nauseas e não conseguia encarar o sangue, uma reação fisicamente forte, desproporcional... pra mim foi entender que tinha alguma coisa muito errada da minha cabeça, um confronto fundamental para minha aceitação de mulher que sangra lindamente <3 Parar com a pílula e usar o coletor - Indico pra vida.

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    1. Que delícia, Kelly! o coletor é feito de silicone e amor! :-)

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  2. Muito legal Letu!
    Nao sei se isso é bom ou ruim, mas nunca deixei de fazer sexo pq a mulher estava mestruada, se a mulher queria. Quanto sangue pelos colchoes, em mim e até mesmo na boca, depois tocava esfregar colchao. Também acho que tem muito nojo infundado na mestruaçao.

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    1. Anônimo, eu não sei quem você é, mas que bom que você gostou! Menstruação é sussa, né? Lavou tá novo! E, olha, anota aí a dica pra mancha de sangue: água oxigenada! Se passar na hora some instantaneamente! Pronto, acabou a desculpa pra não transar menstruada, hahaha!

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    2. O Anônimo é o Caysa. Obrigado pela dica. O difícil é ter água oxigenada e também querer limpar tudo logo depois, normalmente eu jogo um pano por cima e fica abraçadinho, melhor srsrsr.
      Beijos Letu!!!

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    3. Ainda bem que vc é anônimo! Com tanta disposição ia ter uma fila de mulheres que iam virar suas fãs.

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    4. Que legal Caysa! Meu namorado é igual a você, já me relacionei com alguns garotos e sei que vocês são raridades!!! Não ter nenhum tipo de nojo e pudor é ótimo! Letícia a dica da agua oxigenada é MT útil, qual volume que você usa? A gente usa sabonete neutro tbm para tirar as manchas de sangue, passamos e esperamos um pouco, depois esfregam os um pano molhado e sai.

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    5. Putz, não sei quantos volumes... mas rola uma reação química e a mancha desaparece! E também funciona pra vinho tinto!

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    6. De 10 volumes galera. A mesma que usa em ferimentos...

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  3. Olha que legal, sobre coletor:) http://www.huffingtonpost.ca/sabrina-rubli/menstrual-cups-east-africa_b_6313436.html

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  4. Gostaria de saber se o coletor não incomoda? Tenho medo de usar e me machucar.

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    1. Olá, querida. Seja bem vinda.

      O coletor não incomoda nada. Ele fica alocado em um pedaço do canal vaginal em que não temos sensibilidade. É só amor!

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  5. Bom texto desmitifica muita coisa além te a presentar a muita gente esse conceito de coletor.

    Queria saber sua opinião sobre uma observação que iria fazer:
    "Acredito que pessoas possam ter nojo da menstruação tanto quanto possam ter nojo de sêmen, sem ter que serem jugadas por isso. Creio que o nojo não seja algo puramente racional. Embora não tenha nojo de nenhum dos dois, por exemplo tenho nojo de gema (não encontro nada que justifique isso)"

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    1. Olha, querido Anônimo, você pode ter nojo do que quiser! Isso tem a ver com sei lá qual pedaço da sua história de vida. Mas se um grupo gigante de pessoas tivesse nojo de gema de ovo a gente ia ter que se perguntar como está a relação da sociedade com as galinhas, não?

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    2. Existe um grade número de pessoas que tem nojo de sangue/pavor (estou excluindo a sangue menstrual) as vezes chegando a hematofobia, e de nojo sêmen também. Acredito que possa a haver um relação social nisso (como também no sangue menstrual), mas a minha questão é: Seria a relação social predominante pra justificar esses fenômenos?

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  6. Lindo texto, me emocionei. Faz tempo que parei com a pílula (uns 3 anos) e passei a observar as reações, cheiros e texturas da mudança do meu ciclo. Primeiro dia de menstruação pra mim é momento de recolhimento e cuidado de mim. Quando estava trabalhando fora nem sempre podia tirar esse dia off, mas agora que voltei a ser bolsista, rs, me dou de presente um dia de cama, chá e agradecimento pelo sangramento que ao invés de achar que vem me sujar, vem é me limpar e renovar. E sem falar na mudança na relação com o sangue quando das primeiras vezes que usei o copinho coletor. Amei o texto. Admiro quem consegue expressar em palavras os sentimentos de muitas mulheres! :-)

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    1. Livia, que belo depoimento! Fico feliz que minhas palavras te tocaram! Um grande beijo e volte sempre!

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  7. Quanta liberdade em tão poucas palavras. Acho que todas as mulheres deveriam ler este artigo e se amarem mais. Lindo, lindo e lindo. Parabéns meninas, li pela primeira vez hoje. Mais uma vez, parabéns pelo site.

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    1. Pôxa, Enilton, você não imagina o quanto comentários como o seu enchem meu coraçãozinho! Muito obrigada e venha sempre! Abração!

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  8. Água mineral com gaz tb serve como absorvente de manchas....

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  9. Oie, linda...estou passando por aqui pela primeira vez e amei seu post, seu blog em geral! <3 Tenho uma dúvida: Já que é ruim usar absorvente interno ou externo e bom usar o coletor, como faço pra lidar com minha menstruação sendo eu ainda virgem?? Abraços e espero resposta... Beijos =3

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    1. Aline, que bom que você gostou do blog! Fico feliz, feliz quando vocês gostam!

      Aline, a marca de coletor menstrual inciclo respondeu sua pergunta de um jeito que eu achei bem interessante, olha só: "Temos relatos de usuárias que são virgens e se adaptaram muito bem ao InCiclo. Tudo depende se a mulher se sente a vontade em usar.Essa é uma questão muito particular. Fisicamente, o copinho menstrual pode ser usado por mulheres de todas as idades, já que os músculos vaginais são flexíveis.O conceito de virgindade é muito relativo. O hímen é uma membrana fina com aberturas por onde o sangue passa. Se na cultura ou religião da família há preocupação em manter o hímen intacto, não aconselhamos o uso, já que existe a possibilidade de rompimento". O link pra essas e outras respostas a perguntas frequentes é esse: http://www.inciclo.com.br/pt/sobre-o-inciclo/perguntas-frequentes/

      Acho que o mais legal é você conversar com sua médica sobre isso. Lembre-se de que a questão vai muito além do "ser bom" ou "ser mau". É complexo, mas o mais importante é você se sentir confortável com sua escolha, seja ela qual for!

      Beijo grande!

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